A novela "Quem Ama Cuida" além de girar seu eixo em torno da vingança de Adriana (Letícia Colin) e da disputa pela herança milionária de Arthur (Antonio Fagundes), a trama da Globo levantou uma importante questão médica: a da fibromialgia. A doença diagnosticada na personagem Elisa (Isabela Garcia) e na humorista Dani Valente, afeta 7 milhões de brasileiros. Mas você sabe o que é a fibromialgia e seus detalhes?
"A fibromialgia costuma se manifestar principalmente como uma dor difusa pelo corpo, aquela dor que não fica restrita a uma articulação ou a uma região específica. Muitas vezes o paciente também relata cansaço importante, sono que não recupera, dificuldade de concentração e memória, além de sensação de corpo pesado ou dolorido ao toque", resumo o dr. Lúcio Gusmão, especialista e dor em entrevista ao Purepeople.
Atualmente, a maior incisão dos diagnósticos é em pacientes do sexo feminino - acredita-se que no masculino haja o subdiagnóstico. "Durante muito tempo se pensou que fosse uma doença quase exclusivamente feminina, mas os estudos mais recentes mostram que essa diferença pode ser menor do que se acreditava. O mais importante é entender que a dor da fibromialgia é real. Ela está relacionada a uma alteração na forma como o sistema nervoso processa e modula a dor, e não necessariamente a uma lesão visível em músculo, articulação ou nervo", prossegue o profissional.
Também é importante destacar que não há uma ideia certa para os sintomas da doença surgirem. O mais comum é na vida adulta a partir da meia-idade. E podemos associar o quadro de fibromialgia aos hábitos ruins cultivados ao longo da vida? Segundo o dr. Lúcio, não é correta tal associação. "Ela é uma condição multifatorial. Existe uma combinação de predisposição individual, sono, fatores biológicos, emocionais, estresse, estilo de vida e outros elementos que podem contribuir para o aparecimento ou para a piora dos sintomas", lista.
Da mesma forma, não se pode associar ao sedentarismo e tampouco a períodos longos sentados ou de pé. "Não existe evidência de que alguém desenvolva fibromialgia simplesmente porque ficou muito tempo sentado, trabalha muito tempo em pé ou nunca fez pilates. O que sabemos é que a falta de atividade física pode piorar a capacidade funcional e favorecer um ciclo de mais dor, perda de condicionamento, cansaço e medo de se movimentar em quem já apresenta a condição", explica o profissional.
E quais são os exercícios mais recomendados na visão do especialista? "Pode ser caminhada, atividade aeróbica, fortalecimento, pilates, hidroginástica ou outra modalidade. O principal é que seja algo progressivo, individualizado e que o paciente consiga manter. Então, eu costumo dizer que o Pilates pode ser uma excelente ferramenta, mas não é uma obrigação e muito menos podemos dizer que não fazer Pilates causa fibromialgia", pondera.
Mas, afinal, como se chega ao diagnóstico da doença que já atingiu Lady Gaga? "Não existe exame de sangue, ressonância, ultrassom ou eletroneuromiografia que, sozinho, confirme ou descarte fibromialgia. O diagnóstico é clínico. A gente avalia a história do paciente, como essa dor se distribui pelo corpo, há quanto tempo ela existe, se existe fadiga, alteração do sono, dificuldade de concentração e outros sintomas associados", detalha o dr.Lúcio.
"Se o paciente tem muita dor nas pernas, por exemplo, às vezes precisamos investigar outras causas, como problema vascular, neuropatia, alteração na coluna, doença muscular ou alguma condição reumatológica. Nesse cenário, podemos pedir exames. Mas esses exames servem para investigar outras doenças, não para 'provar' fibromialgia", alerta.
Por isso, aquelas doenças acima podem ser confundidas com a fibromialgia. E em alguns casos, artrite reumatoide, lúpus, algumas neuropatias e outras doenças dolorosas. Além do mais, um mesmo paciente pode enfrentar a fibromialgia e uma outra doença simultaneamente.
Portanto o diagnóstico não deve ser feito apenas porque 'todos os exames deram normais'. É preciso reconhecer o padrão clínico da fibromialgia e, ao mesmo tempo, ter certeza de que não existe outro problema explicando os sintomas", frisa o dr.Lúcio. Nesse cenário, a medicação pode exercer o ponto mais importante do tratamento.
Mas ela não deve estar sozinha. "Exercício físico regular, melhora do sono, redução do sedentarismo, orientação sobre a própria doença e, em alguns casos, acompanhamento psicológico fazem muita diferença. A hidroginástica pode ser uma excelente opção porque permite atividade física com menor impacto articular e costuma ter boa aceitação em pacientes que sentem muita dor", exemplifica.
E em relação ao pilates, caminhada e fortalecimento muscular? "Essas e outras atividades também podem ser muito úteis. Já a meia de compressão não é um tratamento padrão para fibromialgia. Ela pode ter indicação se a pessoa tiver algum problema circulatório ou venoso associado, mas não é recomendada simplesmente pelo diagnóstico de fibromialgia", prossegue.
"No fim das contas, o objetivo do tratamento não é só diminuir a nota da dor. É fazer o paciente dormir melhor, voltar a se movimentar, trabalhar, conviver com a família e recuperar qualidade de vida. E existe uma mensagem que eu considero fundamental: a pessoa com fibromialgia não deve ter medo de se movimentar. O movimento, quando bem orientado e introduzido de forma progressiva, faz parte do tratamento", conclui.